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Ozempic e ultraprocessados: o ciclo se fecha

Por Sonali Kolhatkar, no CounterPunch | Tradução: Gabriela Leite


Fabricantes de novos medicamentos para emagrecimento estão ansiosos com a perspectiva de lucro que enxergam no horizonte.


O que os norte-americanos¹ comem, o jeito como fazem dieta e exercícios, o teor de açúcar em seus refrigerantes e o xarope de milho rico em frutose em seus alimentos processados têm sido objetos de especulação interminável em Wall Street. Agora, com medicamentos como Mounjaro, Wegovy e Ozempic, novas perspectivas de exploração se abriram.

Não se trata de uma teoria da conspiração dizer que o vício em alimentos é uma ferramenta de lucro corporativo. Leve em conta que as empresas de tabaco, ao serem reguladas para conter a adição em cigarro, voltaram suas atenções para a alimentação viciante.


“Nos Estados Unidos, o maior aumento na prevalência de alimentos hiperpalatáveis ocorreu entre 1988 e 2001 — a era em que os conglomerados de tabaco Philip Morris e R.J. Reynolds possuíam as maiores empresas de alimentos do mundo”, escreveu o colunista de saúde do Washington Post, Anahad O’Connor, no ano passado. “Os alimentos que eles vendiam eram muito mais propensos a ser hiperpalatáveis do que alimentos semelhantes não pertencentes a empresas de tabaco.”


Muitos desses alimentos ultraprocessados são especialmente comercializados visando as crianças, e seu alto consumo altera a sua química cerebral para que desejem esses produtos por toda a vida. Ficaríamos chocados com a ideia de vender tabaco para os pequenos, mas as mesmas empresas empurraram alimentos viciantes para eles. E, embora a Big Tobacco não esteja mais no ramo de alimentos, suas práticas permanecem difundidas.


À medida que as taxas de obesidade aumentaram, há um jogo de culpa muito familiar que individualiza o dano causado por um sistema que prospera com o vício.


Os médicos alertam seus pacientes que devem lutar para controlar seu peso, restringir suas calorias e fazer exercícios vigorosos. Programas de TV como o reality show norte-americano “The Biggest Loser”² consolidaram a narrativa de que a obesidade é resultado de indivíduos que não conseguem controlar seus impulsos alimentares. E a obsessão da cultura pop estadunidense com uma magreza inatingível gera espirais de vergonha e alimenta ainda mais a ideia de que as pessoas são gordas simplesmente porque são fracas demais e não conseguem se controlar.


Enquanto isso, há pouca ou nenhuma regulamentação governamental³ para conter alimentos não saudáveis nos Estados Unidos. Em vez disso, as soluções oferecidas são individualizadas, muitas vezes gerando indústrias lucrativas próprias.

Ao lado do marketing agressivo de alimentos ultraprocessados, há uma indústria de emagrecimento extremamente lucrativa que se aproveita da vergonha individual para movimentar mais de 60 bilhões de dólares por ano. Na verdade, algumas das mesmas empresas que empurram alimentos hipercalóricos estão no ramo da perda de peso.


Hoje, os fabricantes de medicamentos para emagrecimento são os grandes vencedores na mudança do cenário de consumo de alimentos e peso, e cobram dezenas de milhares de dólares por um ano de suprimento — garantindo que apenas os ricos tenham acesso à magreza que nossa cultura celebra.


O Ozempic, por exemplo, poderia custar apenas 57 dólares por ano e seu fabricante, Novo Nordisk, ainda obteria lucro. Em vez disso, está sendo vendido nos EUA por impressionantes 11.600 dólares por ano. Esses preços não só distanciam esses medicamentos das pessoas de baixa renda que lutam para controlar seu peso, mas também das mãos dos diabéticos, para quem foram originalmente destinados.


Por prever que os preços vão cair assim que o mercado de elite estiver saturado, os fabricantes de medicamentos procuram garantir seu futuro no mercado, incentivando os médicos a prescreverem os medicamentos amplamente.

Um especialista em obesidade chamado Lee Kaplan, que recebeu 1,4 milhão de dólares da Novo Nordisk, disse a seus colegas médicos: “Vamos precisar usar esses remédios… enquanto o corpo quiser ter obesidade”. O que ele não diz é que continuará havendo obesidade enquanto os fabricantes de alimentos empurrarem os ultraprocessados sem regulação às pessoas.


Em última análise, nosso apetite individual e nossas cinturas são apenas peões no jogo altamente lucrativo. A indústria de alimentos ultraprocessados está se tornando simbiótica com a indústria de medicamentos para perda de peso. A primeira garante que comemos mal e a segunda está lá para se alimentar de nossa vergonha.


 

[1] O texto foi publicado em um site norte-americano e é centrado na realidade daquele país. Mas é possível transpô-la para o Brasil, guardadas algumas diferenças importantes.


[2] “The Biggest Loser” é um reality show estadunidense no qual os participantes competem para perder peso e melhorar sua saúde através de dietas rigorosas e exercícios físicos intensos, com o objetivo de ganhar um prêmio em dinheiro. Foi transmitido no Brasil na televisão a cabo e aberta.


[3] No Brasil, há regulamentações em vigor para alimentos ultraprocessados. A principal é a exigência de rotulagem nutricional, estabelecida pela Anvisa, que desde 2022 obriga os produtos a apresentarem selos frontais de advertência sobre altos teores de açúcar, gordura e sódio. Além disso, há discussões sobre a implementação de um imposto seletivo para produtos que são prejudiciais à saúde, como os ultraprocessados, no contexto da Reforma Tributária.

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